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La mariée était en noir

Ano: 1968

Realizador: François Truffaut

Actores principais: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy 

Duração: 107 min

Crítica: Não, não foi o Quentin Tarantino quem inventou ‘A Noiva’ nas duas partes de ‘Kill Bill’. Tarantino foi buscar o conceito da mulher cujo marido é morto à porta da igreja e depois jura vingança (como vai sempre buscar os seus conceitos a qualquer sítio excepto à originalidade da sua mente) ao clássico filme de 1968 ‘La mariée était en noir’ de François Truffaut. 30 anos antes de Uma Thurman quem concebeu e encarnou a personagem da Noiva foi a  magnífica Jeanne Moreau. 

Depois de ser o líder da Nouvelle Vague no início da década de 1960, Truffaut já tinha bruscamente mudado de estilo ao fazer ‘Fahrenheit 451’ em 1966, e não foi por acaso que ‘La mariée était en noir’ surgiu depois das famosas entrevistas que fez a Hitchcock mais ou menos pela mesma altura. Nem foi por acaso que quem compôs a banda sonora deste filme foi Bernard Herrmann (compositor de Psycho, North by Northwest, Vertigo,…), nem que o filme se baseie num romance do mesmo escritor de ‘Rear Window’, que Hitchcock havia filmado na década anterior. Basicamente, Truffaut queria fazer um filme à Hitchcock. Mas embora o estilo possa ser superficialmente análogo, Hitchcock nunca poderia ter feito um filme como este, tal como Truffaut nunca poderia ter feito, verdadeiramente, um filme como Hitchcock. 

‘La mariée était en noir’ é uma história de vingança. Quando Jeanne Moreau descia as escadas da igreja saída do seu próprio casamento, uma bala perdida matou o seu noivo. Em cinco sequências distintas, o filme mostra Moreau a matar cada um dos 5 homens que estava no quarto de onde a bala foi disparada. Não é a forma como os mata (Tarantino) que interessa. Nem tão pouco a construção da sequência, o suspense criado (Hitchcock). O público já sabe que Moreau os vai mandar de esta para melhor, de uma forma ou de outra. Para Truffaut, o que interessa é a alma destas personagens, que são tratadas com o mesmo desprezo superficial corriqueiro presente na sua restante obra. As pessoas, tal como os acontecimentos, são reais e mundanas, pelo que devem ser tratadas como nada de mais. Existem, acontecem e pronto. Avança-se.

De um lado está a Noiva. Jeanne Moreau era a musa do cinema francês. Não a mais bonita das actrizes, era sem dúvida a mais talentosa, e aquela que mais trabalhou com a flor fina da geração de cineastas dos anos sessenta (Demy, Truffaut, Malle, Bunuel, Godard). Mas aqui, com 40 anos, já parece demasiado envelhecida para o papel. As suas formas mais cheias, a cara mais enrugada, tornam-na de certa forma pouco credível quando seduz os homens com um olhar, quando é, na verdadeira essência da palavra, uma femme fatale. Mas a sua aura existe, e de que maneira! Contudo, a sua cruzada assassina é uma de incertezas e de dúvidas. Constantemente hesita. Embora o seu plano esteja bem urdido (matar!), tudo parece surgir de improviso. A única coisa que está definida são os 5 nomes, os 5 alvos. O restante acontece como o destino assim o decidir, excepto quando chega a hora decisiva de matar. Quando o faz, é a sangue frio, sem remorsos, sem dúvidas. Prometeu vingar o noivo. Vinga-o.

Do outro lado estão as 5 vítimas. A cada uma delas é dada uma construção cuidada de carácter, mas cada uma delas é suficientemente crente e descuidada para deixar infiltrar a noiva na sua vida. Aqui está a riqueza do filme. Para cada sequência, para cada morte, há uma longa interacção entre assassino e vítima. A noiva precisa de conhecer o lado humano das suas vítimas, não só para saber como chegar o suficientemente perto para as poder matar, como também para, quando o fizer, essa morte ser o mais dolorosa possível.

‘La mariée était en noir’ não é um filme sobre 5 assassinatos. É um filme sobre 5 personagens (mais uma). O argumento é demasiado realista no estudo das vítimas para não se tornar desinteressante nas longas sequências, mas suficientemente irrealista na personagem etérea da Noiva para dar aquela magia cinematográfica e apelo universal ao filme. E a fluidez da filmagem de Truffaut, espirituosamente realista, minimiza o impacto de cada cena, de forma a que o clímax (já esperado), possa ser, mesmo assim, chocante. Não é por acaso que este é um dos grandes sucessos de bilheteira de Truffaut. É raro um filme tão bom ser tão simples.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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