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Frankie Laine - a Voz do Oeste

Frankie Laine (1913-2007), nascido Francesco Paolo LoVecchio. Um cantor que no seu tempo rivalizou com Frank Sinatra, Dean Martin, Bobby Darin. Na realidade conheço pouco da vida e obra de Laine, ao contrário destes outros nomes que referenciei (nunca fizeram o filme!). E tal como eu, creio que o nome não diz tanto, a tanta gente, como diz o de Sinatra ou o de Martin. Creio que nunca atingiu esse estatuto universal (também ao contrário dos outros três, nunca foi actor). Mas marcou uma época, uma geração, um estilo, e é só ler os comentários saudosistas nos seus vídeos do youtube para perceber que é o americano que viveu os anos 1950, ou os filhos dele, que mais adoram Laine.

Pessoalmente, não posso falar sobre os seus álbuns, sobre qual é a sua melhor música, sobre como foi a sua carreira. Mas há uma coisa sobre a qual posso falar, e serve este pequeno post para partilhar isso com o fiel leitor. Posso falar sobre o seu legado ao cinema. Desde 'High Noon' (1952), durante a década de 1950 e 1960, Laine cantou o tema principal de um punhado de westerns seminais. Não há um amante do western que não reconheça imediatamente a sua voz, que não se sinta acomodado e confortado quando o filme se inicia e é brindado com um genérico com um tema impactante e impecavelmente interpretado por Laine (oh, como faz falta o genérico no início dos filmes hoje em dia!). É isso que eu conheço sobre Laine. A sua voz, e a forma como vibra para introduzir mais uma 'cowboyada'. Se Clint Eastwood é o espírito do Oeste (ver 'Rango', 2011), então Frank Laine é a Voz do Oeste.

E foi assim que aconteceu...


1. 'High Noon' (1952)

Neste excelente filme, onde Gary Cooper ganhou o seu segundo Óscar de Melhor Actor, a música 'Do Not Forsake Me Oh My Darling' é cantada por Tex Ritter. Mas ironicamente foi o single cantado por Laine que percorreu o mundo, que se tornou um sucesso de vendas (superou em vendas a versão do filme) e que contribuiu fortemente para que o Óscar de Melhor Música fosse parar às mãos de Dimitri Tiomkin (o compositor) e Ned Washington (o letrista). Este triunvirato, Laine, Tiomkin e Washington, iriam delinear a história do western nos anos subsequentes...


2. Blowing Wild (1953)

Hollywood tem a grande mania de repetir fórmulas quando algo é um sucesso, tanto hoje como no passado. No ano seguinte, mais um western, de novo com Gary Cooper, de novo Dimitri Tiomkin (desta vez com letra de Paul Francis Webster) e de novo Frankie Laine a cantar. Mas nem Hugo Fregonese, o realizador deste filme, é Fred Zinnemann, o realizador de 'High Noon', nem 'Blowing Wild' foi o sucesso de 'High Noon'. Contudo, o tom balada de 'Do Not Forsake Me Oh My Darling' foi mantido (aqui parece uma música de James Bond), mas iria ser substituído por um ritmo mais acelerado com o decorrer da década.


3. Man Without A Star (1955)

A canção de 'Man Without a Star' (um filme que nunca vi, realizado por King Vidor e com Kirk Douglas) foi composta por  Arnold Schwarzwald e Frederick Herbert, e creio que a sua grande inovação em relação às músicas de Tiomkin foi a mudança de ritmo, mudança essa que iria marcar Laine. A forma como ele canta a frase "Who Knows" é tão chicoteante como iria dizer posteriormente "Bullwhip" ou claro, "Rawhide"! Esta é uma das melhores músicas, para mim, cantada por Laine no cinema, e trás consigo uma iminência de perigo, em vez da nostalgia pesada de 'Do Not Forsake Me Oh My Darling'.


4. Strange Lady In Town (1955)

O filme da Warner, 'Strange Lady in Town', realizado por Mervyn LeRoy e com Greer Garson como a senhora desconhecida, marca o regresso da dupla de composição Tiomkin e Washington, bem como do formato 'balada alegre'. Se filme e música foram esquecidos, o melhor estava para vir, logo a seguir.


5. Gunfight at the O.K. Corral (1957)

Não sei se há filme melhor que este sobre a famosa luta em Tombstone. Mas tenho a certeza que há poucas ou nenhumas músicas de westerns melhores que esta, e que esta é a melhor contribuição de Laine para a sétima arte. O filme de John Sturges que conta com Burt Lancaster como Wyatt Earp e Kirk Douglas como Doc Hollyday, inicia-se com um tema poderosíssimo sobre o dever, composto pela dupla Tiomkin e Washington. Mais de cinquenta anos volvidos, é ainda um tema de que nos envolve no filme e na luta. Às vezes nem apetece continuar a ver o filme. Apetece chegar a fita atrás e rever o genérico (já fiz isso mais que uma vez!). 'Duty Calls!'


6. 3:10 to Yuma (1957)

Nunca vi o original '3:10 to Yuma' (infelizmente, já vi o péssimo remake com Christian Bale e Russell Crowe). Os actores principais, Glenn Ford e van Heflin, são dois actores que não aprecio muito. A canção, com letra de novo de Washington mas com música de George Duning, é muito menos impactante e muito mais contemplativa, mas não deixa de ser envolvente.


7. Bullwhip (1958)

'Bullwhip' foi um filme menor, praticamente de série B, realizado por Harmon Jones e com Rhonda Flemming e Guy Madison nos papéis principais. A canção foi composta por Hal Hopper e James Griffith, e adoro a forma como Laine diz a palavra "Bullwhip" no final. Não sei, mas desconfio que possa ser o melhor que o filme tem para oferecer. Foi também a última contribuição de Laine para a sétima arte até dezasseis anos depois. Entretanto faria história na televisão, com um tema extraordinário...


8. Rawhide (1959–66)

Depois do cinema nos anos 1950, Laine conheceria outra popularidade, semanal, na televisão. E foi o primeiro tema que cantou que ainda hoje o marca. É tão intenso, tão ritmado, tão viril que é universalmente reconhecido e nunca esquecido. Não vou dizer que foi parodiado muitas vezes. Foi homenageado, isso sim, muitas vezes, de 'Blues Brothers' a 'American Tail 2'. A série, 'Rawhide', lançou Clint Eastwood. O tema, claro, foi composto por Tiomkin e Washington. E Laine fez o resto. E fê-lo extraordinariamente. Certamente o leitor já conhece o tema. Se não, então desejo-lhe uns excelentes dois minutos, e até já.


9. Gunslinger (1961)

Tiomkin, Washington e Laine. O triunvirato do Oeste de volta. A série não foi tão famosa como 'Rawhide' e o tema parece tentar revisitar os melhores momentos de todos os temas anteriormente compostos pela dupla. Empalidece quando comparado com os gritos quase guturais de 'Rawhide', mas é mesmo assim uma excelente canção. Era assim que se entrava numa série nos anos 1960... Agora... não é bem a mesma coisa...


10. Blazing Saddles (1974)

Laine iria cantar o tema de mais duas séries, a de 'Rango' (infelizmente não a encontrei no youtube) e a de 'Sheriff Lobo' (apesar do seu nome não é um western). A sua carreira, por esta altura, já não estava tão em alta. Mas Laine ainda tinha uma última cartada a jogar no Cinema, e foi uma despedida gloriosa, a meu ver. Já escrevi neste blog como Mel Brooks foi um realizador que compreendeu muito bem o cinema; o presente e o passado. Quando fez a sua excelente paródia/homenagem ao Oeste, 'Blazing Saddles', supostamente lançou um pedido aos agentes de Hollywood para lhe arranjarem um cantor que "soasse como Laine". Muito surpreendido ficou quando o próprio Laine ofereceu os seus serviços. Brooks não se fez rogado. Com música de John Morris, e letra do próprio Brooks, a canção 'Blazing Saddles', nomeada para o Óscar, é um tema extraordinário. Pode estar inserida numa comédia, mas bem que podia fazer parte dos grandes westerns da década de 1950. Laine despedia-se do cinema. E foi, por todas estas músicas, um contributo brilhante. Ele é, realmente, a Voz do Oeste.

Obrigada Frankie!


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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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