Home » , , , » Transcendence

Transcendence

Ano: 2014

Realizador: Wally Pfister

Actores principais: Johnny Depp, Rebecca Hall, Morgan Freeman

Duração: 119 min

Crítica: A passagem de um director de fotografia (DOP) a realizador é um fenómeno muito natural no cinema, já que o DOP é a pessoa mais próxima do realizador na concepção de uma cena e do look do filme. E é sempre interessante perceber quanta influência acaba por ter o DOP no produto final. Quando Jan de Bont, por exemplo, o DOP de ‘Die Hard’ (1988), ‘Basic Instinct’ (1992) ou ‘The Hunt for Red October’ (1990) se estreou na realização com o fenomenal filme de acção ‘Speed’ (1994) foi fácil de perceber qual era a sua visão e o seu estilo, e a forma como isso tinha passado para os filmes que havia feito como DOP. ‘Transcendence’ (em português 'A Nova Inteligência') é o primeiro filme realizado por Wally Pfister, que foi o DOP de todos os filmes de um dos melhores, senão o melhor realizador americano a surgir na década de 2000, Christopher Nolan. Nomeado por 3 vezes para o Óscar, sempre em filmes de Nolan, finalmente obteve o galardão para a melhor cinematografia à quarta, por ‘Inception’ em 2010. Quem viu ‘Inception’ ou ‘Dark Knight’ não poderá deixar de reconhecer que os filmes para além da sua profundidade emocional e narrativa, apresentam igualmente um visual de tirar a respiração, que ainda mais conduz a história. 

Por isso mesmo havia todos os motivos de interesse para antecipar este novo nome na realização. Para além do mais, Nolan ficou a bordo como produtor, e o elenco, liderado por Johnny Depp e Rebeca Hall, incluía outros habitués de Nolan como Morgan Freeman ou Cillian Murphy. Aparentemente, estavam todos a ajudar Pfister, o que faria crer que havia fé não só no realizador como no filme. Contudo, o filme foi um fiasco nas primeiras semanas de exibição na América e os críticos não ficaram convencidos, a segunda vez seguida, depois de ‘The Lone Ranger’, num filme liderado por Depp. Mas se no caso de ‘The Lone Ranger’ (a critica pode ser lida aqui) não posso concordar, já que o filme é um blockbuster animado, explosivo e nostálgico, e foi uma inexplicável aversão dos críticos antes do filme sequer estrear que afastou as pessoas das salas, no caso de ‘Transcendence’ quer os críticos quer o público têm, a meu ver, toda a razão. Tendo em conta as pessoas que estão por detrás do filme, ‘Transcendence’ é um produto inexplicavelmente mau, a não ser claro, que o justifiquemos dizendo que Pfister ainda não tem a maturidade nem a qualidade para liderar um filme, e se eventualmente é um excelente DOP (a não ser que a influência do génio de Nolan também tenha chegado a esse departamento), não o é, de forma alguma, um grande realizador. Mas os males de ‘Transcendence’ vem de raízes mais profundas. O argumento, de um tal de Jack Paglen, é miserável e está cheio de buracos, e nenhum dos actores parece estar muito convencido com o material (veja-se a performance adormecida de Depp, como se Jack Sparrow tivesse fumado umas ganzas). ‘Transcendence’ poderia ser um filme que resultaria, vá, suficientemente bem, noutros meios e com outros recursos. Encaixaria como uma luva nas produções de baixo orçamento e de fraca convicção do canal Sci-Fi, com maus actores, maus efeitos especiais, uma história levemente a soar a mil e outra coisas familiares do público, mas alguma capacidade de entretenimento para alguém que está em casa a ver o filme só com um (ou meio) olho. Mas feito com um orçamento gigantesco de Hollywood, actores de Lista A e visto no grande ecrã, ‘Transcendence’ é uma aberração completa, um descarrilamento épico, um fiasco pateta, que causa mais pena pela sua completa e infantil falta de qualidade do que propriamente repulsa.

O filme abre logo com a pior opção de todas, com o fim, ainda por cima narrado pela personagem de Paul Bettany, um actor que geralmente me enerva, e aqui não é excepção. Quem quer que tenha visto o trailer, ou lido a sinopse, nem que tenha sido naqueles panfletos à porta do cinema, já sabe o que vai acontecer no filme. A única coisa que realmente não sabe é como acaba, e por isso, e para ver os actores, é que paga o seu bilhete. Agora se o filme abre com o fim e o conta nos primeiros 45 segundos, qual é o interesse das restantes duas horas? Só resultará se se vir o filme de surpresa, se não se souber absolutamente nada sobre ele, o que, convenhamos, não é o caso da maior parte dos espectadores.

Posto isto regressamos 5 anos atrás no tempo e somos introduzidos às personagens de Depp e Hall, um casal de investigadores na vanguarda da inteligência artificial. A sua química é zero, mas lá nos é oferecido um conjunto de cenas para nos tentar convencer como gostam um do outro. Logo a seguir, num grande congresso, ouvimos todo e qualquer lugar comum sobre a ética da criação de maquinas pensantes. Depp e Hall pensam nas possibilidades de cura de doenças, capacidade de pensamento avançada e afins. Outros, como Battany ou Freeman, estão um pouco mais reticentes no poder e dependência das máquinas. De qualquer forma este é um daqueles filmes que pouco ou nada explica. Quando um filme explica de mais (como ‘Pacific Rim’), com os actores debitando jargão cientifico elaborado mas totalmente oco, é patético. Quando um filme explica de menos, como ‘Transcendence’, também a coisa soa falsa. ‘Transcendence’ às vezes parece daqueles filmes de ficção científica dos anos 1960. O cientista está bloqueado num problema e está prestes a desistir. Mas depois vira-se para o computador diz algo como “espera, só se tentar isto…” sem nunca explicar realmente o quê, e logo a coisa já resulta para grande alegria do próprio, mas um levantar de mãos indignado do espectador.

Há ainda um conjunto de hackers e radicalistas, anti avanços no campo da inteligência artificial e da substituição de humanos por máquinas, liderados pela interessante Kate Mara, que iniciam uma série de atentados contra todas as grandes instalações de investigação e os principais investigadores. Depp é atingido com uma bala de raspão, mas como a bala tinha um isótopo radioactivo, isso significa que só terá poucas semanas de vida. Então Hall tem a ideia de fazer o upload dos impulsos eléctricos e do código cerebral de Depp para o computador de inteligência artificial (se percebi bem), assim colmatando dois problemas, o primeiro a incapacidade de fazerem, até então, o computador, por mais avançado que fosse, ter consciência humana, e o segundo dar uma espécie de imortalidade a Depp. Escondem-se num velho ginásio e trabalham dia e noite. Depp morre pouco depois mas em mais um daqueles momentos “e se eu tentar isto” Hall consegue pôr o Depp virtual a funcionar. Bettany não fica completamente convencido e recusa-se a liga-lo à internet, mas Hall fá-lo na mesma. A partir desse ponto, Depp fica ligado a todos os computadores do Mundo, com um poder quase ilimitado. Rapidamente transfere milhões para a conta de Hall, e ela vai para uma cidadezinha no meio do deserto construir um grande centro de investigação, para saciar a necessidade de memória e processadores do seu marido virtual.

Entretanto quer os hackers revolucionários, que nesta altura já capturaram Bettany, quer os agentes do governo, liderados por Cillian Murphy, desaparecem estranhamente. Passam 5 anos e não nos apercebemos realmente o que é que esta gente toda andou a fazer para parar o poder incessante de Depp. Ficou tudo à espera que o filme os chamasse de volta? Aparentemente sim. Assistimos isso sim ao crescer do gigantesco centro, onde um Depp virtual se divide em realizar o trabalho que sempre sonhou com uma inteligência virtual ilimitada, nomeadamente criar tecidos humanos computadorizados que regeneram as células e portanto curam doenças, e uma obsessão megalómana de transformar o Mundo em elementos todos semelhantes a ele, incluindo começar a criar uma espécie de exército robótico (?!) a partir dos habitantes da pequena cidade. O único suposto contraponto emocional a esta trama de ficção científica de cordel é a personagem de Hall, que foi na corrente destes planos por achar que realmente aquele ser virtual era ainda o seu marido, mas que agora começa a aperceber-se que foi tudo um pouco longe de mais. Esta relação mulher-máquina poderia elevar o filme a um patamar muito interessante, à semelhança do recente filme de Spike Jonze 'Her', mas nesta caso, infelizmente, é debitado como uma série de lugares comuns, que Rebecca Hall não consegue contornar (é boa actriz mas não é excelente). Para além do mais o emocional é sempre instável e incoerente. O filme preocupa-se sempre com outros artifícios, o atirar constante de 'areia para os olhos', e só investe nas emoções quando lhe convém, portanto quando o faz, é sempre tudo extremamente difícil de digerir e de contrabalançar com a trama.

Tudo converge, finalmente, para a pequena cidadezinha, onde os hackers, aos quais se junta finalmente Bettany, e os agentes do governo, aos quais se junta Freeman, aliam-se a ainda uma hesitante Hall para tentar parar Depp, o que implica infiltrarem-se no centro e colocarem um vírus no seu sistema, basicamente desligando a internet mundial. Já Depp vai usar o seu exército robótico para tentar impedir que isso aconteça, bem como a sua própria morte virtual…

Esta ‘batalha’ no meio do deserto é outra coisa bastante patética. Visto a gravidade da situação (um ser virtual que está a corromper todos os sistemas informáticos do planeta e a transformar humanos em robôs zombies – expressão minha, mas é o que eles são!), parece incrível que o governo e o FBI ataquem com cerca de 5 soldados e um tanque. Não há absolutamente mais ninguém por ali. Que raio de batalha é esta? 5 soldados e um tanque contra uns robôs zombies? Numa das incursões ao centro de investigação, Bettany vai com uma arma em punho à frente destes 5 soldados. Desculpem, Bettany não é um informático? Agora é líder de soldados? Desde quando? Só vai à frente para criar uma tensãozinha de personagens, mais um dos artifícios pouco inteligentes do filme… E no final Hall irá dividir-se entre sacrificar-se pela causa humana e o seu amor por Depp, o que levará a um desfecho que não é surpreendente pois o soubemos logo no início, e portanto à medida que ele se aproxima vamos adivinhando-o, o que lhe tira a pouca graça que ainda poderia ter.

‘Transcendence’ tinha possibilidades infinitas existenciais e filosóficas, como aliás ‘Inception’ tinha e geriu perfeitamente, sem deixar que isso influenciasse a sua veia de filme de acção/ficção científica. Mas de todas estas possibilidades, ao contrário de ‘Inception’, ‘Transcendence’ não explorou absolutamente nenhuma. Depois da discussão de lugares comuns na conferência no início do filme, e exceptuando uma ou outra achega emocional quando o filme acha necessário mas que, como disse em cima, soa sempre a falso, não há nenhuma ponderação profunda (ou até superficial!) daquilo que está a acontecer. Em vez disso o filme vai saltando no tempo e no espaço esquecendo personagens e linhas coerentes de argumento, focando-se num espalhafato visual que é uma autêntica esparrela fílmica, e capitalizando em twists absolutamente sem sentido, sem sabor e sem lugar num filme que prometia coisas absolutamente diferentes daquelas que acabou por dar. O exemplo do que chamei robôs zombie é perfeito. Por amor de Deus, parece que estamos a ver o ‘Tubarão das duas Cabeças’ ou lá como se chamam aquelas aberrações do Sci-Fi. Não se percebe como a tecnologia é concebida, não se percebe o que os hackers e o FBI ficam a fazer durante 5 anos, não se percebe a maior parte das atitudes das personagens, não se percebe como é que o governo ataca só com 5 soldados e um tanque, não se percebem nenhumas implicações socio-económicas do que Depp anda a fazer (tudo é centrado no microcosmos da cidadezinha) e não se percebe a moral do final. Ou melhor percebe-se. Mas ela é fraca.

Por um lado há uma mensagem de pseudo-amor entre o Depp virtual e Hall, que não emociona porque não só ambos não têm química nenhuma como não foi explorada ao longo do filme, portanto quando chega ao clímax ninguém no público acredita nela. Depois há a mensagem batida do mundo depois do colapso, dada ao mais belo estilo americano: “dizem que há telefones em Chicago, e que há alguma electricidade em Denver”, e onde as pessoas andam todas de bicicleta e não têm uso para os computadores (um lojista usa um teclado para segurar uma porta). Para começar, os carros não precisam de internet para andar. Depois, também não é preciso internet para usar um computador, pois não? Pode-se escrever, ver filmes, jogar solitaire, enfim... Depois nunca se vê nada do que se passa em lado absolutamente nenhum da Terra tirando naquela terriola no meio do deserto. O Mundo todo ficou sem internet? Então imitem os filmes de Michal Bay e mostrem-nos um miúdo na China a dar pancadas no computador. O final do filme é tudo menos épico, não só porque a batalha é parva e patética, como não nos mostra nenhuma consequência, no Mundo ou até nas personagens. Talvez o último plano se safe (fez-me sorrir pela primeira vez no filme) mas é o único. Às vezes isso é suficiente para salvar um filme. Neste caso não.

De um filme que poderia ser um novo ‘Inception’ (e provavelmente seria se Nolan tivesse ficado a bordo como realizador), ‘Transcendence’ é um desperdício que fará muito mais mal do que bem às carreiras de todos envolvidos (Depp principalmente, após dois fiascos precisa urgentemente de um sucesso – que tal o Piratas 5?!). Tudo graças a uma gestão completamente descuidada e sem grande imaginação de Pfister, e a um argumento incoerente e cheio de buracos. Este é o seu primeiro filme, e obteve todos os apoios que quis, portanto é de supor que deve ter pensado nele plano a plano, frase a frase, segundo a segundo. Mas olhando para o filme parece que não pensou. O filme não convence nada. Há momentos em que está absolutamente morto. Não se passa nada, perdeu todo o ritmo e toda a vida e anda em círculos para queimar mais uns minutos de película. Depois vai tendo uns electrochoques pouco convincentes que o vão reavivando para conseguir respirar até ao final. Em termos de realização, Pfister faz o óbvio num realizador estreante, filmando uma gota de chuva aqui, uma flor a abrir ali, o pormenor de uma cómoda. Mas cedo se esquece disto e sente-se muito contente com as suas ideiazinhas de filme de ficção científica de série B (C, Z!!!) que, honestamente, não podem ser colocadas num filme com Johnny Depp ou Morgan Freeman! Não é o emocional, nem os efeitos especiais, nem as actuações que salvam o filme. Nada salva o filme. Ou Pfister ganha juízo, ou vai-se tornar mais um realizador de blockbusters banais. Pelo que fez em ‘Transcendence’ não está aqui um Nolan, ou um Ridley Scott ou até um Duncan Jones da ficção científica. Está aqui, quanto muito, um Renny Harlin. E se o leitor sabe quem é Renny Harlin então percebe perfeitamente o que eu quero dizer. Se não sabe, então deve ser uma pessoa feliz e não vai querer nada com este filme.

2 comentários:

  1. Bem, eu realmente gostei da história. Eu gostei, havia muitos elementos que pareciam muito atraente para mim, a sequência de ideias foi bom, mas alguma coisa aconteceu durante esse filme que não se conformava Trascender; no entanto, é um muito interessante para quem gosta de filme de ficção científica, o colapso da humanidade e do governo conspirações. Ele tem seus contras, mas é definitivamente interessante perguntar-nos mesmo com filmes, dilemas éticos que existem na ciência e desenvolvimento. Nós dois estamos dispostos a sacrificar a nossa ética e morais, a fim de salvar vidas; um debate que queima quando se trata de células, nanotecnologia e ciência médica-tronco.

    ResponderEliminar
  2. Verdade, mas acho que arranjaram uma maneira ridícula de enquadrar esse tão interessante debate de que fala. O que, para os recursos que este filme tem à disposição, é inacreditável. Se fosse um filme menor do cana Sci-Fi aceitávamos, agora uma grande produção de Hollywood?! Não sei, se calhar preciso de ver o filme outra vez...

    ResponderEliminar

Porque todos somos cinema, está na altura de dizer o que vos vai na gana (mas com jeitinho).

Vídeo do dia

Citação do dia

Top 10 Posts mais lidos de sempre

Com tecnologia do Blogger.

Read in your language

No facebook

Quem escreve

Quem escreve
Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

Visualizações

Seguidores Blogger

 
Copyright © 2015 Eu Sou Cinema. Blogger Templates