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P.S. I Love You

Ano: 2007

Realizador: Richard LaGravenese

Actores principais: Hilary Swank, Gerard Butler, Harry Connick Jr.

Duração: 126 min

Crítica: Toda a gente sabe que gosto de cinema. E, como tal, toda a gente me faz a pergunta clássica “Já viste o filme X, Y, Z”. Surpreendentemente, ficam muito espantadas quando eu digo que não. O cinema leva 120 anos portanto seria um pouco presunçoso da minha parte dizer que tenho um domínio total e completo sobre tamanha, infindável, produção. Tento ver o máximo que posso, mas há sempre coisas que me escapam, quer sejam filmes bons, quer sejam filmes maus. Portanto quando alguém me diz "Devias ver este filme, gostei muito”, eu registo. Vai para a minha lista, que está no meu famoso caderninho. Agora posso demorar dois, três, cinco anos a chegar a essa linha da minha lista, mas inevitavelmente chego. Não está esquecido, simplesmente ainda não chegou a sua vez (fica aqui a desculpa a todos os que me recomendaram filmes que eu ainda não vi!).

Foi em 2007 que uma grande amiga minha na altura me recomendou vivamente ‘P.S. I Love You’. Tinha-o ido ver ao cinema e tinha gostado muito, tinha-o achado muito comovente e bonito. Eu deveria ver esse filme, dizia ela. Não lhe disse (quem era eu para julgar) mas sinceramente fiquei extremamente céptico. Estávamos a falar de uma comédia romântica, como houve às carradas a meio da década de 2000 após o estrondoso sucesso de bilheteira de ‘Love Actually’, baseado num daqueles best-sellers do New York Times que fazem as delícias da Oprah e respectivas fãs, que vendem como batatas quentes, e que estava reputado como um enorme tearjerker.

Não me interprete mal, leitor, não tenho nada contra o conceito de comédia romântica em si. No último par de décadas o género deu-nos filmes suficientemente interessantes como o já citado ‘Love Actually’ (2003), ‘Notting Hill’ (1999) ou ‘The Holiday’ (2006) que, não sendo obras-primas, proporcionam mesmo assim uma sessão relaxada, agradável e até inspiradora, principalmente se vistos com a cara-metade. Mais ainda, o filme era realizado por Richard LaGravenese, que havia escrito famosos dramas românticos de chorar baba e ranho como ‘The Bridges of Madison County’ (1995) de Clint Eastwood, ‘The Mirror Has Two Faces’ (1996) de Barbra Streisand, ou ‘The Horse Whisperer’ (1998) de Robert Redford, e que havia feito o salto para a cadeira de realizador recentemente. Mas mesmo sabendo isso eu não estava convencido. Talvez seja preconceito, mas tenho uma aversão natural para com estes livros que vendem imenso num ano, dos quais se faz imediatamente o filme para capitalizar, e que no ano seguinte já ninguém se lembra que quer livro ou filme alguma vez existiram. É prova que o sucesso adveio mais da moda e/ou da novidade e não propriamente da qualidade. Talvez tenha sido essa a razão por eu ter esperado uns três anos para finalmente responder à recomendação da minha amiga e ver ‘P.S. I Love You’.

Mas vi-o. Inteirinho. Do início ao fim, sem falhar nenhuma cena, algures em Maio de 2010. Nunca mais o revi (nem nunca mais quero), mas escrevi notas suficientes para agora poder escrever mais uma crítica clássica de ‘filme a evitar’ de Eu Sou Cinema. Sim, porque os meus piores medos tornaram-se realidade. ‘P.S. I Love You’ é uma completa e total aberração. Não faço ideia o que se terá passado pela cabeça da minha amiga. Talvez estivesse num momento emocional sensível, por qualquer circunstância da vida. Isto porque ‘P.S. I Love You’ tem dois quartos de comédia romântica, na onda das entradas mais acéfalas da década como ‘Valentine’s Day’ (2010), que também tive a infelicidade de ver num avião (talvez escreva uma crítica sobre esse em breve), mas tem também dois quartos de filme sobre a perda, o que é um pouco inexplicável, no contexto cénico em que existe. Ainda recentemente critiquei um fabuloso filme sobre a perda, ‘Ordinary People’, vencedor do Óscar de Melhor Filme em 1980, e há outros como ‘La Stanza del Figlio’ de Nanni Moretti (2001), que usam a morte de um ente querido, um marido, um filho, como o catalisador para brilhantes estudos de personagem que constituem obras-primas de cinema. Já ‘P.S. I Love You’ está a anos-luz deste tipo de filmes; é um filme sobre a perda do mais banal que há, sem nenhuma profundidade mas um monte de lugares comuns, para jovens de liceu verem com os seus namorados e, agarradinhas ao seu braço másculo, dizerem num sussurro apaixonado mas completamente oco “ah, se fosses tu a morrer era assim que eu me iria sentir”…

‘P.S. I Love You’ ambiciona então o que poucos filmes tentaram fazer (e nenhum que eu me lembre com grande sucesso); unir o género de comédia romântica com o drama de perda, num único pacote cinematográfico de duas horas. Acho que só havia duas maneiras de fazer isto com sucesso. Ou tornar tudo leve, mas mágico, criando um filme que existiria no seu próprio reino de fantasia, assumindo que era apenas um filme, mas não deixando de inspirar e dar lições de vida, ou então explorar o lado emocional e dramático, o que tornaria o filme mais pesado, mas que teria a comédia romântica para atenuar o impacto numa ou noutra cena. Agora ‘P.S. I Love You’ não faz nem uma coisa nem outra. Anda constantemente de um lado para o outro a tentar ser comédia romântica e drama de perda ao mesmo tempo, com enormes ambições em ambas as margens, e com a agravante de que a comédia romântica ganha sempre, mesmo após os eventos mais pesados, o que faz com que todo o filme seja, na minha humilde perspectiva, completamente superficial e oco. Admito que o seu conceito base poderia, em mãos mais capazes, ter gerado um filme (e quem sabe um livro – nunca o li) muito interessante. Mas nunca com esta abordagem. Nunca desta maneira.

O casal neste caso é formado pelo par mais improvável da história: Hilary Swank e Gerald Butler. Digo que o par é improvável por dois motivos. Primeiro porque nenhum dos actores está muito confortável no papel. Por esta altura Hilary Swank já tinha ganho dois Óscares de Melhor Actriz, em praticamente os dois únicos filmes de nome em que entrou. Que tem talento é indiscutível, e que não tem medo de fazer coisas ‘fora’ ou de pior qualidade desde que a personagem lhe interesse também, mas alguém lhe devia ter dito que ela não ficava nada bem neste tipo de papel cómico-romântico-dramático. Não sei, talvez tenha achado que se a Meryl Streep conseguia, ela também conseguiria. Já Butler não está propriamente em Esparta, mas até se aguenta bem (melhor que Swank) como galã de bom coração. Apesar de ter um muito estranho sotaque irlandês (Butler, como sabemos, é escocês, mas em Hollywood vai tudo dar ao mesmo), ele é, literalmente, a alma do filme, e a melhor coisa que ele tem. Muito embora (ponto número dois) não tenha química absolutamente nenhuma com Swank. Não se pede muito de uma comédia romântica, mas ao menos pede-se que o casal de actores principais tenha química, o que não acontece.

A segunda coisa que se pede de uma comédia romântica é que acreditemos que as duas personagens estejam apaixonadas uma pela outra. É essencial! Mas neste filme não acredito nisso. A personagem de Butler, como vamos percebendo mais tarde por flashbacks, é charmoso, engraçado, inteligente e com um coração do tamanho do mundo. Muito bem. Já a personagem de Swank, em toda e qualquer cena que aparece com Butler, ou é uma ‘loira burra’ (embora não seja loira) ou é uma vaca. Só após a morte de Butler é que ela prova ter qualquer tipo de sensibilidade, mas nas cenas em que o filme nos mostra o casal ela é tudo menos atraente. Portanto, como é que é possível que Butler se tenha apaixonado por ela? Não acredito. Mas enfim, o amor é irracional, por isso avançando. 

O filme pede então para que acreditemos que se amam muito e que estão casados há nove anos. A cena de abertura mostra-os a ter uma discussão, mas depois a fazer as pazes, estabelecendo assim, até de uma forma minimamente inteligente, as suas personagens. Depois rola o genérico de abertura e na cena logo a seguir já estamos a assistir ao funeral de Butler, que, diz-nos o filme, morreu de um tumor cerebral (uma doença muito conveniente para o que está para vir). Segue-se um extenso período de choradeira, que finalmente é atenuado pela ‘novidade’ do filme. Antes de morrer, Butler concebeu um plano para ajudar a sua esposa a ultrapassar a sua morte (que marido incrível!). Assim sendo, escreveu uma série de cartas, que acredite-se ou não, antecedem tudo o que se irá passar no filme e toda a montanha russa emocional de Swank (ele conhecia bem a sua mulher, não?!). E são essas cartas que Swank vai recebendo nas alturas mais convenientes que arrastam quer o filme, quer Swank, ajudando ambos a lidar com a perda e a seguir em frente. Sem as cartas nem um nem o outro conseguiria.

Pior, as cartas têm uma especial apetência para aparecer nas alturas em que o filme começa a ficar inacreditavelmente chato, como se soubessem que era o momento ideal para o filme ter uma injecção de energia, ou pelo menos, de uma coisa nova. E como se não bastasse, também conseguem aparecer em qualquer lado do mundo. Aparecem na Irlanda (Butler é irlandês e Swank vai lá depois da sua morte reviver o passado), aparecem nos Estados Unidos, aparecem em qualquer sítio que Swank esteja. Como é que um homem a morrer conseguiu ter a clarividência de arranjar tudo isto é para mim um mistério e um turn off gigantesco do filme. Os filmes não precisam de explicar tudo. Há filmes fantasiosos que não fazem sentido, mas não nos importamos, porque são fantasiosos. Agora num drama supostamente muito realista???

Mesmo assim, apesar desta parte fantasiosa das cartas não fazer sentido, não me incomodou tanto como as partes emocionais do filme, que são bastante pobres e bem abaixo das capacidades dos seus actores. Swank ainda dá vislumbres de magnificência pouco após o seu marido morrer, quando se fecha em casa, alheando a sua mãe (Kathy Bates em modo rotina), e as suas amigas (Lisa Kudrow e Gina Gershon), citando Dickens e vendo velhos filmes de Betty Davis. Mas todo este esforço emocional de uma personagem a tentar dar um novo rumo para a sua vida era demasiado para o público-alvo deste filme entender, portanto a vertente comédia-romântica / romance de quiosque vem ao de cima. Instigada por mais uma carta, lá vai Swank com as amigas para a Irlanda, seguindo-se cenas “cómicas” e de “romance” para todas, que são apenas convenientemente interrompidas pelas memórias de Butler e muita choradeira com a regularidade de um relógio. E é na Irlanda que claro aparece o novo interesse amoroso, interpretado por Jeffrey Dean Morgan, quando já nos States Harry Connick Jr., uma personagem muito mais enfadonha, tinha tentado a sua sorte com a viúva. E quer cartas, quer personagens, conseguem tirar da cartola aquelas frases pontilhadas de lugares comuns de “a vida vale a pena ser vivida” e “há sempre uma oportunidade para amar de novo” que só apelarão a um público que não está à espera de muito ou que não quer pensar muito, mas que a mim me dão vontade de vomitar. 

Mas confesso que entre as personagens a falar, ou a leitura das cartas, sinceramente prefiro as cartas. Por mais lamechas que sejam, ainda vão tendo um objectivo, nem que seja catapultar o filme para as próximas cenas. Já os discursos, por amor de Deus. Veja-se o discurso que Harry Connick Jr. faz, por exemplo. Estabeleceu-se a sua personagem como bronca, que tinha dificuldade em compor uma frase do início ao fim em todas as cenas em que entra. De repente, esta personagem faz um discurso enorme, fantástico, com palavras mais que adequadas e uma métrica perfeita, sobre o sentido da vida. Como é possível?! Porque este filme é desses, e mais não é preciso dizer. Só falta ouvirmos ‘acção’ antes de eles começarem a falar, e de ouvirmos umas palmas quando terminam.

Pronto. Não quero deitar este filme completamente abaixo, porque entendo perfeitamente que há uma série de espectadores que vão apreciar bastante e sentir-se comovidos com esta história que chega a ter pontos comoventes. Talvez eu não seja virado para a lamechice e por isso não entenda todas as suas ramificações dramáticas desta obra, cegado como estava pelo sebo do lugar-comum da novela romântica a entupir-me os ouvidos (!). Mas sinceramente, o objectivo do filme, creio eu, é inspirar o público, demonstrando que a vida continua apesar das desgraças que podem acontecer, e que coisas fantásticas estão ao virar da esquina, se ousarmos ultrapassar os nossos sentimentos e virar essa esquina. É um objectivo nobre e não me oponho nada a ele. Mas no final de contas, o que é que o filme utilizou para o atingir? Tácticas cinematográficas batidas, clichés românticos vistos em milhares de filmes, choradeira artificial logo esquecida quando um novo galã romântico aparece no ecrã, um final tudo está bem quando acaba bem com insinuações de que todas as personagens vão encontrar o seu novo amor. Assim sendo, em vez de termos uma obra que nos ajude a compreender, a ultrapassar, a reflectir (e uma comédia, ou uma comédia romântica pode fazer isso tão bem como um drama, verdade seja dita), temos uma obra que nos pode tocar, sim, no momento em que a vemos, mas que esquecemos passados 5 minutos de sairmos da sala, enquanto dizemos “que bonito, mas isto só acontece nos filmes…”.

O final do filme é a prova perfeita deste argumento. Adivinhamos esse final a meio do filme, e com quem Swank vai acabar, mas apesar de ser extremamente previsível, o filme tenta dar uma de inteligente, acabando por dar uma de ridículo. Aquela cena no Yankee Stadium, do beijo falhado com um dos pretendentes para Swank descobrir que gosta é do outro e que conseguiu finalmente ultrapassar a morte do marido (“Gerry is gone” diz ela) é completamente patética. Uma daquelas coisas que resulta bem em papel, quando imaginamos (portanto pode ser que resulte no livro), mas que quando a vemos materializada, pelo menos desta maneira, não tem um pingo de emoção ou magia.

À minha amiga peço desculpa. Sou esquisito eu sei, e nunca abordo com muito bons olhos este tipo de coisas género Nicholas Sparks ou Margarida Rebelo Pinto. Eu vejo muitos filmes, já vi todas as maneiras de fazer comédia, drama, romance ou tudo misturado, como é este o caso. E portanto, como tal, já cheguei ao ponto na minha vida em que não preciso, quer para me entreter, quer para me inspirar, de mais um filme feito para “as massas” cheio de clichés sobre o amor e sobre a vida, especialmente após um início tão promissor e uma ideia de base minimamente original. No final, e sendo sério, creio que este filme foi demasiado ambicioso com a sua mistura de géneros. Se tivessem optado por uma abordagem mais ligeira, suponho que teria gostado mais. Como costumo dizer, não precisamos de ir ao cinema ver sempre um ‘Lawrence da Arábia’. Às vezes vamos ao cinema para relaxar, e não nos importamos de ver um argumento mais batido, uma obra mais mastigadinha. Mas tem que ter o mínimo de interesse, ter o mínimo de sentido, e não pode (a regra de ouro) ser presunçosa, achar que pode ensinar o público a sentir, e almejar píncaros dramáticos que estão completamente fora da sua esfera. Por isso, e menos pela telenovelice do argumento, acho que ‘P.S. I Love You’ é um falhanço completo, porque o filme está constantemente entre estados emocionais e entre géneros. Sempre pelo meio, no limbo. Nunca focado num deles. E no fim ganha a comédia romântica.

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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