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Life Begins for Andy Hardy

Ano: 1941

Realizador: George B. Seitz

Actores principais: Mickey Rooney, Lewis Stone, Judy Garland

Duração: 101 min

Crítica: ‘Life Begins for Andy Hardy’ (em português ‘Andy Hardy Começa a Vida’) é o décimo primeiro dos dezasseis filmes da saga Andy Hardy (o supremo Mickey Rooney), o membro mais novo da família Hardy que vive na pequena cidade americana de Carvel. Numa era antes de haver televisão, esta simpática, divertida e didáctica saga familiar alcançou um sucesso instantâneo, e portanto a MGM começou a produzir sequelas, literalmente, “em série”, até que esta franchise se tornou a mais bem-sucedida da história do cinema americano, um título que ainda hoje dificilmente é contestado.

No primeiro filme ‘A Family Affair’ (1937), Andy era apenas um jovem adolescente de 14 anos de idade, o escape cómico para os problemas mais sérios que o pai, o Juiz Hardy (a partir do segundo filme interpretado por Lewis Stone) e a irmã mais velha, Marian (Cecilia Parker) tinham de enfrentar. Mas em 1941, quatro anos e dez filmes depois (todos eles já criticados em EU SOU CINEMA) Andy, com 18 anos de idade, havia-se tornado o epicentro da saga e Mickey Rooney (então com apenas 21) estava a viver os seus anos dourados como o actor mais popular e mais rentável à escala mundial. 

Longe já estavam os filmes iniciais em que a fórmula das aventuras familiares se repetia quase a papel químico, em obras com maior ou menor qualidade; ‘You're Only Young Once’ (1937); ‘Judge Hardy's Children’ (1938); ‘Out West with the Hardys’ (1938) e 'The Hardys Ride High' (1939). Lentamente, a personagem de Andy começou a ganhar cada vez mais importância, suportada pela contagiante energia e infinita dinâmica cómico-dramática de Rooney. Assim, a introdução do nome da sua personagem nos títulos das obras originou também uma mudança crucial na saga. Deixou de narrar as desventuras da típica família da pequena América para narrar, quase em exclusivo, a odisseia de crescimento do típico adolescente americano, de uma forma tão universal que ainda hoje faz sentido para jovens de todo o mundo.

"O décimo primeiro filme (...) mantém, e inclusive mais explora, o tom e o estilo que o décimo filme havia consolidado. De facto, é o filme que tem um dos eventos mais pesados de toda a saga, mas não o oferece gratuitamente. Enquadra-o numa história credível, que amadurece à medida que Andy amadurece (...) Com Andy prestes a tomar decisões importantes na sua vida, o filme acompanha-o, tomando uma enorme consciência."

Apesar da saga rapidamente ter ultrapassado a meia dezena de filmes, isso não implicou que o seu gás se estivesse a esgotar. Pelo contrário. Graças a Rooney e esta inspirada mudança de tom, a saga entrou no seu período mais brilhante. ‘Love Finds Andy Hardy’ (1938) é uma obra-prima em formato comédia romântica adolescente. 'Andy Hardy Gets Spring Fever’ (1939), onde Andy se enamora de uma mulher mais velha, é uma brilhante e virtuosa odisseia cómico-dramática sobre a passagem de adolescente a adulto, com invulgares notas introspectivas. E ‘Judge Hardy and Son’ (1939) encontra o perfeito balanço entre a veia cómica e a veia didáctica.

Mas na viragem para a década de 1940 dois elementos voltaram a reconfigurar o padrão da saga. O primeiro foi o pau de dois bicos que adveio da extraordinária popularidade de Rooney. Como escrevi na crítica ao filme anterior “parecia haver o claro receio de que a sua personagem mais famosa, Andy, crescesse demasiado depressa e assim perdesse o seu carisma e o seu apelo”. Isso não só fez abrandar o ritmo de produção dos filmes como o nono filme, ‘Andy Hardy Meets Debutante’ (1940), é um dos piores pois há uma clara regressão na maturidade que Andy havia encontrado, e a veia didáctica volta a sobrepor-se ao crescimento de Andy, em vez de estar a par com ele. Da mesma forma, os produtores quiseram transladar para a saga Hardy a química entre Mickey Rooney e Judy Garland que tanto sucesso estava a ter em musicais como ‘Babes in Arms’ (1939) ou ‘Strike up the Band’ (1940). Mas fizeram-no introduzindo forçadamente a personagem de Garland, Betsy (que tanto havia brilhado em ‘Love Finds Andy Hardy’) neste filme, sem se darem ao trabalho de realmente a envolver na história e no arco emocional de Andy. Felizmente, Betsy voltaria ao seu velho eu na sua terceira e última aparição na saga em ‘Life Begins for Andy Hardy’.

O segundo elemento foi a iminência da Segunda Guerra Mundial e a maturidade que os jovens americanos de repente tiveram de assumir sobre a vida, o dinheiro e a felicidade. Após a decepção que foi ‘Andy Hardy Meets Debutante’, o décimo filme ‘Andy Hardy's Private Secretary’ (1941) provou ser um dos melhores da saga precisamente porque é “o mais maduro e o mais emocionalmente profundo até este ponto”. O filme ganhou coragem para assumir que finalmente Andy deixou de ser um adolescente, como começou a introduzir problemáticas mais sérias, adequadas a um mundo em mudança. Contudo, teve a classe suficiente, ao contrários de alguns anteriores, para dar margem de manobra a Rooney para continuar a fascinar-nos com a sua comédia. Era neste equilíbrio entre o drama e o humor que a saga, e Rooney, atingiam os seus melhores momentos.

"Este é o primeiro daquela que a que eu chamo a “trilogia de Verão” da saga Hardy. No final de ‘Andy Hardy's Private Secretary’, Andy termina o liceu, mas teria de esperar três filmes (...) para finalmente apanhar o comboio para a faculdade. Provavelmente receosos que esta ida estragaria a aura da saga, os produtores conceberam um dos maiores Verões cinematográficos de que há memória"

Assim sendo, o décimo primeiro filme, ‘Life Begins for Andy Hardy’, de novo realizado por George B. Seitz (que até agora só não havia realizado o sétimo filme), mantém, e inclusive mais explora, o tom e o estilo que o décimo filme havia consolidado. De facto, é o filme que tem um dos eventos mais pesados de toda a saga, mas não o oferece gratuitamente. Enquadra-o numa história credível, que amadurece à medida que Andy amadurece. Os problemas mesquinhos da adolescência com que Andy outrora se havia confrontado são agora uma memória distante. Com Andy prestes a tomar decisões importantes na sua vida, o filme acompanha-o, tomando uma enorme consciência. 

Lançado uns meros seis meses após o filme anterior, ‘Life Begins for Andy Hardy’ é o primeiro daquela que a que eu chamo a “trilogia de Verão” da saga Hardy. No sublime final de ‘Andy Hardy's Private Secretary’, Andy termina o liceu, mas teria de esperar três filmes, até ao final de ‘Andy Hardy's Double Life’ (1942) para finalmente apanhar o comboio para a faculdade. Provavelmente receosos que esta ida para a faculdade estragaria a aura da saga, os produtores conceberam um dos maiores Verões cinematográficos de que há memória, ao longo de três obras. Nesta primeira, Andy tem a sua primeira aventura laboral ‘no mundo real’, em Nova Iorque.

Numa manobra inédita, o filme inicia-se exactamente na mesma noite em que o anterior havia terminado, durante a festa do final de liceu (é apenas o segundo filme da saga que não começa no tribunal com o Juiz Hardy). Judy Garland anuncia com estrondo o seu regresso à saga, demonstrando uma dinâmica enérgica logo na primeira cena, em que liga ao Juiz Hardy (a sua cumplicidade vai-se manter ao longo do filme) para ter notícias de Andy, que já não vê desde os eventos de ‘Andy Hardy Meets Debutante’, dois filmes atrás. Anuncia também a sua visita a Carvel e quer saber como estão as coisas entre Andy e Polly (a sempre deliciosa Ann Rutherford), a eterna namorada de Andy.

"Porque a Universidade para onde Polly vai é longe daquela para onde Andy está a pensar ir (...) acabam por se despedir. Sempre achei que Polly foi algo injustiçada por toda a saga (...) mas Rutherford sempre brilhou nas poucas cenas que lhe deram e aqui não é excepção. A despedida dos dois é terna, entre o engraçado e o comovente, e tocará o íntimo de quem seguiu a saga desde o início e, como eu, sempre teve um particular carinho por Polly."

De facto, as coisas não estão grande coisa, porque a Universidade para onde Polly vai é bastante longe daquela para onde Andy está a pensar ir. Assumindo o seu afecto mas também que são novos demais para ter um compromisso sério, Andy e Polly acabam por se despedir. Sempre achei que Polly foi algo injustiçada por toda a saga, porque com algumas excelentes excepções (como 'Andy Hardy Gets Spring Fever’), sempre teve que ficar em segundo plano, aparecendo só no início e no fim dos filmes para que Andy pudesse ter outros interesses amorosos pelo caminho (e claro, outras jovens actrizes pudessem aparecer na saga). Mas Rutherford sempre brilhou nas poucas cenas que lhe deram e aqui não é excepção. A despedida dos dois é terna, entre o engraçado e o comovente, e tocará o íntimo de quem seguiu a saga desde o início e, como eu, sempre teve um particular carinho por Polly. “If this is goodbye forever then… goodbye forever” diz Andy. Felizmente não era ainda, como parecia, o adeus definitivo. Apesar desta despedida sentida, ela voltaria para mais dois filmes, precisamente os outros dois desta trilogia de Verão.

No novo dia, Andy está dividido. A forma como desce as escadas em roupa interior a dar os seus gritinhos costumeiros é sinal de que sente a liberdade de ter terminado o liceu e está pronto para a vida. Mas ao mesmo tempo está hesitante em fazer aquilo que a família espera dele, ou seja, candidatar-se a uma bolsa de estudos da mesma Universidade onde o pai havia estudado para seguir as suas pisadas na advocacia. Felizmente, apesar de pressionar Andy nesse sentido, o Juiz Hardy sempre foi um homem justo. Assim, os dois chegam a um acordo. Andy usará o mês que o separa da candidatura à Universidade para experimentar “viver a vida” no mundo laboral de Nova Iorque, de forma a poder decidir por si se quer trabalhar ou continuar a estudar, como o pai pretende.

Esta conversa é a primeira de muitas que destacam ainda mais a relação de proximidade entre Andy e o seu pai. De facto, os outros elementos da família são completamente descartados. A irmã Marian, que nem sequer tinha entrado no filme anterior, está ausente pela segunda vez (continua de “férias”), enquanto a tia Milly (Sara Haden) diz talvez duas frases em todo o filme, e a mãe (Fay Holden) só aparece em intervalos regulares para se lamuriar com saudades do filho. Ninguém parece notar que Marian está ausente “de férias” há muito mais tempo do que aquele que Andy fica em Nova Iorque, mas tudo bem. Por fim, como desta vez (caso raro) não há nenhum problema para o Juiz resolver (a não ser, claro, os que concernem o filho), todo o filme fica livre para se dedicar em exclusivo a esta aventura de Andy. E que aventura.

"O mundo real é um local duro (...) e o filme não se acanha em o demonstrar (um claro ponto a seu favor), com elementos argumentais inesperadamente pesados para aquilo que tinha sido o padrão da saga até então. (...) Se Andy vai ter que gerir o seu pathos com maior introspecção, é Betsy que vai dando ritmo e energia à peça (...) A sua retórica de one-liners é deliciosa e Garland é sublime, mesmo sem cantar uma canção"

Com Betsy ao seu lado (a excelente química entre os dois é notória e é talvez a melhor dos seus três filmes em conjunto) Andy faz as despedidas de Carvel sentado ao volante do seu carro novo. “Well, goodbye everybody. Don’t worry about me. I might have gotten in a lot of complications in my life, but that was when I was just practically a kid. No, I see everything much clearer now. I’m never gonna make any more mistakes”. Sabendo o que a casa gasta, duvidamos muito, mas não podemos deixar de sorrir quando acelera pelas ruas de Carvel e grita "Today I am a Man!". O problema é que se irá aperceber ao longo do filme que isso não é verdade.

O mundo real é um local duro, especialmente para um jovem da província sem experiência, e o filme não se acanha em o demonstrar (um claro ponto a seu favor), com elementos argumentais inesperadamente pesados para aquilo que tinha sido o padrão da saga até então. Quando chega a Nova Iorque, Andy hospeda-se numa residência de jovens e aí conhece Jimmy (excelente interpretação do jovem Ray McDonald, mais um estreante que faria carreira nos musicais da MGM). Enquanto Andy chega cheio de esperança, energia e dinheiro nos bolsos, Jimmy já está há demasiado tempo na grande cidade e esconde a sua amargura num interessante humor sarcástico. Aspirante a dançarino, ainda não conseguiu singrar e vai-se lentamente abaixo. De facto, Jimmy é a primeira personagem em verdadeiras dificuldades de toda a saga, visto que a família Land (os exilados da Europa Nazi que os Hardy haviam ajudados no filme anterior), apesar do argumento nos querer convencer do contrário, nunca tinham sido vistos realmente em sofrimento. Os diálogos que Andy e Jimmy partilham nas longas noites na residência são mais um surpreendente toque de maturidade e pungência, tal como a saga Hardy nunca tinha visto. 

Mal sabe que Jimmy se despediu de um emprego como moço de recados num escritório na Baixa, corre para lá para tentar obter o lugar para si. A cena em que espera horas na recepção que o director regresse demora quase dez minutos (mas horas também na óptica do espectador) e não tem realmente muita consequência. De facto, as cenas na empresa que tentam oferecer algum escape cómico não são muito bem-sucedidas porque se arrastam em demasia. Mais piada tem Betsy que entretanto anda às voltas com o carro de Andy pelo quarteirão, tentando encontrar um lugar de estacionamento. Aliás, se Andy vai ter que gerir o seu pathos com maior introspecção, é Betsy que vai dando ritmo e energia à peça. Agora com 16 anos, Betsy transformou-se numa mulher e está muito mais viva e interessante. Ainda apaixonada por Andy, vai funcionar como o seu anjo da guarda até ao final, mas fica muito mais na retina a sua lábia nova-iorquina. A sua retórica de one-liners é deliciosa e Garland é sublime, mesmo sem cantar uma canção. Acredita, caro leitor, que quatro temas foram gravados, mas todos acabaram por ser cortados da versão final do filme?! Por muito que custe admitir, seria um pouco estranho que, num filme de contornos tão acutilantes, se parasse para cantar e dançar…

"Os mini-dramas de Andy no escritório, como a sua paixão pela promiscua secretária nunca resultam muito bem. Precisamente porque o filme fez um muito bom trabalho a tornar credíveis as dificuldades de Andy e Jimmy e portanto, estas aventuras posteriores parecem muito banais em comparação. (...) Não há como esquecer o tom pesado desta película, e é de louvar esta manobra tão surpreendente e tão arriscada"

Andy perde o emprego (o sobrinho do patrão fica com ele) mas enamora-se da jovem secretária, Jennitt (Patricia Dane no primeiro papel da sua curta carreira). Como a Hardy-girl deste filme, Jannit, acostumada a ter os homens enrolados à volta do dedo, assume o papel de “tentadora da grande cidade”, semelhante àquele que já havia existido com a herdeira francesa em ‘You're Only Young Once’ ou a corista em ‘The Hardys Ride High’. A diferença é que Dane dá ao papel a presença de uma femme fatale de um filme noir, o que ao início até parece bem mas depois talvez se torne algo desadequado para esta saga, principalmente porque ela é inconstante. Primeiro usa o seu charme para fazer com que o inocente Andy lhe compre coisas, mas depois parece arrepender-se e mais à frente até é ela que lhe arranja o primeiro emprego. Mesmo assim nunca se percebe bem se o faz porque está a divertir-se a enganá-lo ou se realmente começou a ter-lhe algum afecto. O filme, pelo contrário, nunca a pinta com boa luz. Afinal, nesta altura mulheres como Jannit não eram bem vistas...

Mas até Jannit lhe arranjar emprego Andy vai passar maus momentos e descobrir o quão difícil é a vida, com o seu dinheiro a esgotar-se pouco a pouco (“That’s the trouble with life, it dime’s you to death”) e recusando-se a receber ajuda financeira de Betsy que lhe diz uma frase hilariante: “Brother if you’re not the forgotten man, you’re certainly not being remembered very well”. A cena em que, agastado e desgrenhado, desabafa num banco de jardim a Betsy é das mais dramáticas, senão a mais dramática que a saga tinha tido até aqui, e o filme ainda vai ter um evento mais trágico, com a morte súbita de Jimmy (o primeiro falecimento da saga). Andy pensa que é um suicídio causado pela fome (era esse o motivo original) mas a Censura não o aprovou. Assim, Jimmy morre de um problema congénito, tal como o médico deixa claro para que não haja dúvidas, nem em Andy nem no espectador. 

Contudo, o filme vai desviar as atenções para outro lado, provavelmente para não deprimir em demasia o espectador. Mas os mini-dramas de Andy no escritório, como a sua exaustão causada pela fome, a troca de uma carta importante e a sua paixão pela promiscua secretária nunca resultam muito bem. Precisamente porque o filme fez um muito bom trabalho a tornar credíveis as dificuldades de Andy e Jimmy e portanto, estas aventuras posteriores parecem muito banais em comparação.

Infelizmente, será Jennit e não Jimmy a impulsionar o grande “drama” no terceiro acto desta obra e que levará à intervenção de Betsy e do Juiz Hardy. O Juiz desloca-se até Nova Iorque para ter a clássica conversa homem para homem com o filho, para que Andy perceba que o dinheiro, a diversão e as mulheres não são tudo na vida. O discurso do Juiz sobre a fidelidade fica no ouvido e ressoa ainda hoje sem ser datado. Já Betsy dá uma ajuda “desmascarando” Jannit, muito embora grande parte do seu comportamento “mau” seria hoje perfeitamente aceitável. E como Andy é Andy, quando chamado à razão, vai perceber o erro do seu comportamento e tomará as decisões correctas.

""Life Begins for Andy Hardy’ é um dos melhores filmes da saga (...) É um forte grito de consciência social a que Rooney responde com um incrível pathos (...) Nunca vimos Andy assim (...) e nunca vimos um Rooney tão seguro, tão pouco infantil e a fazer tão pouco overacting nas suas cenas dramáticas (...) Antes era apenas um grande jovem actor. Com este filme prova que se tornou, verdadeiramente, um grande actor."

Apesar do final alegre, não há como esquecer o tom pesado desta película, e é de louvar esta manobra tão surpreendente e tão arriscada, especialmente porque resulta sem ser melodramática ou forçada. Por entre os inesperados elementos que este filme apresenta (mais premente, obviamente, o falecimento de Jimmy) o que é mais memorável são menos esses eventos em si (que o filme se recusa a capitalizar morbidamente como se fosse uma novela) mas mais a ousadia e a mestria de os entrecruzar com o crescimento de Andy. A maneira simpática e didáctica, mas algo mecânica, como a saga sempre tinha oferecido a sua moral aos jovens americanos, é substituída por uma abordagem madura e realista que resulta em pleno. De facto, se o filme anterior é ainda hoje um dos melhores filmes sobre terminar o liceu da história do cinema, este é um dos melhores filmes sobre os jovens adolescentes que se “mandam” para a grande cidade para começar a vida, transitando para a idade adulta.

Parece-me contudo que os cenários escolhidos para esta história (praticamente só dois, a empresa e a residência dos jovens) e as escolhas argumentais (que apenas se prendem com a relação de Andy com Jannit e Jimmy, e os seus problemas financeiros) são talvez demasiado contidos e retiram alguma dimensão à história. Da mesma forma, apesar da personagem de Jimmy ser uma adição surpreendente e impactante, hesito se não será demasiado forçada, tal como é forçada a existência da mulher interesseira que no final nunca é assim tanto. Mas sempre foi num micro-cosmos que a saga de Andy Hardy provou ser mais eficaz e, nesse sentido, este filme não é excepção.

‘Life Begins for Andy Hardy’ é um dos melhores filmes da saga porque é mais do que um filme com morais familiares e de crescimento. É um forte grito de consciência social a que Rooney responde com um incrível pathos, ainda balanceando o seu humor nato (que, pelas vicissitudes da sua personagem deixou de ser juvenilmente inconsequente) com a maturidade da sua condição, dentro e fora do ecrã. Na verdade nunca vimos Andy assim, com tanta consciência, com tanto espírito de sacrifício. Sem hesitar vende o seu bem mais precioso, o carro, para pagar o funeral do amigo. Sem hesitar, sabe que tem de fazer a coisa acertada quando confrontado com a sua primeira grande decisão de vida. E nunca vimos um Rooney tão seguro, tão pouco infantil e a fazer tão pouco overacting nas suas cenas dramáticas, nesta que é bem capaz de ser a sua melhor interpretação como Andy Hardy. Antes era apenas um grande jovem actor. Com este filme prova que se tornou, verdadeiramente, um grande actor.

"Este é um dos filmes com a moral menos forçada e portanto é um dos filmes mais poderosos, independentemente de ser o filme mais dramáticos de todos (...) Era o filme fundamental para consumar a sua passagem de adolescente a adulto (...) e foi mais um enorme sucesso de bilheteira para a MGM. Óbvio. É um dos filmes da saga que melhor balanceia solidez dramática e entretenimento familiar. E no final, tudo está bem quando acaba bem. A fórmula perfeita."

No final Andy quase parafreia (pela terceira vez no filme) a sua frase inicial "You know I was only a kid when I left Carvel, now I see things much clearer, and I'm never gonna make that mistake again". Temos muitas dúvidas que assim será, mas já não temos dúvidas que Andy já não é uma criança. Num espaço de dois filmes cresceu perante os nossos olhos, tornou-se um homem, um homem com um coração eternamente jovem, que sempre irá sorrir de excitação desmesurada, mas que agora sabe o suficiente do lado negro da vida para ser sincero e sentido quando pausa e reflecte sobre assuntos mais sérios.

Com Betsy e o Juiz por perto, Andy nunca esteve realmente em perigo (ao contrário de Jimmy), mas também isso não é importante. O importante é ele ter descoberto o outro lado da existência e tê-lo feito sozinho e com naturalidade. Este é um dos filmes com a moral menos forçada e portanto é um dos filmes mais poderosos, independentemente de ser, sem dúvida, o filme mais dramáticos de todos. E, notamos, precisamente por isso, que este era o filme fundamental para consumar a sua passagem de adolescente a adulto. Ainda mais que o anterior, este filme quase que se poderia suster sozinho. Mas o facto de conhecermos esta personagem, termos crescido com ela próxima do coração, só torna a obra ainda mais interessante e duradoira.

‘Life Begins for Andy Hardy’ foi mais um enorme sucesso de bilheteira para a MGM. Óbvio. É um dos filmes da saga que melhor balanceia solidez dramática e entretenimento familiar. E no final, tudo está bem quando acaba bem. A fórmula perfeita. Deixamos Andy em Carvel, desta vez não ao lado de Polly, mas de Besty, para continuar o seu Verão (Garland faz uma despedida em grande da saga, é pena que não regresse…). A faculdade está à porta, mas o Verão é longo e ainda há duas aventuras para viver, antes de ele terminar…

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Quem escreve

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Miguel. Portuense. Nasceu quando era novo e isso só lhe fez bem aos ossos. Agora, com 31 anos, ainda está para as curvas. O primeiro filme que viu no cinema foi A Pequena Sereia, quando tinha 5 anos, o que explica muita coisa. Desde aí, olhou sempre para trás e a história do cinema tornou-se a sua história. Pode ser que um dia consiga fazer disto vida, mas até lá, está aqui para se divertir, e partilhar com o insuspeito leitor aquilo que sente e é, quando vê Cinema.

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